Da Embaixada
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Honduras, o país mais violento da AL

Além dos enormes estragos provocados na educação, a crise política em Honduras também prejudica um dos principais problemas do país, a violência fora de controle.

Ontem, estive nas Nações Unidas para entrevistar o italiano Luca Renda, representante do PNUD em Honduras, e o colombiano Rafael Espinosa, especialista em prevenção de segurança.

Foi daquelas conversas de abrir os olhos. De posse de vários números oficiais, os dois fizeram uma análise sombria do problema da violência no país _Renda chega a advertir de que o país corre o risco de se transformar num "narcoestado". Parte do relato dos dois está em reportagem publicada hoje na Folha (só para assinantes agora, sorry). Aqui estão alguns dados que dimensionam melhor o problema:

  • Honduras é o país mais violento da América Latina, com uma taxa de homicídios de 58 por 100 mil habitantes. E essa taxa só cresce: em 2008, ainda no governo Manuel Zelaya, o aumento foi de 25% em relação ao ano anterior, com 4.473 homicídios. Neste ano, deve subir cerca de 9%
  • A polícia está cada vez mais letal: em 2008, houve 54 mortes registradas em enfrentamentos. Neste ano, até setembro, já houve 80 mortes.
  • A impunidade é quase total. A polícia, em média, só apurava 30% das denúncias. Com a crise, a operatividade caiu 40% . Exemplo: em La Ceiba, terceira cidade do país, só 8 de 5.800 denúncias foram apuradas.
  • Honduras é um país armado e com uma legislação frouxa sobre o assunto. Uma pessoa pode ter até cinco armas, e uma nota fiscal basta para demonstrar que ela é legal. Estima-se que haja 800 mil armas em circulação.
  • O registro de armas é precaríssimo. Até mesmo as da polícia: apenas 30% estão regularizadas.
  • A segurança está privatizada: há apenas 12 mil policias, enquanto as empresas de segurança têm 60 mil homens
  • O país é um grande corredor para o narcotráfico e vive um surto de chegada avionetas venezuelanas carregadas de cocaína colombiana rumo ao Norte. E tem poucos recursos técnicos para combater _não possui capacidade, por exemplo, de interceptar voos noturnos. A infiltração na política e nos órgão do Estado é cada vez maior e fica impune.
  • Não há um serviço de proteção a testemunhas eficaz.
  • Os funcionários do Estado, como promotores e policiais, se sentem inseguros e desprotegidos.
  • O sistema penitenciário é corrupto e violento.

 

A crise política jogou a crise na segurança pública para baixo na escala de prioridades. Também deve ocorrer o mesmo quando chegar o novo governo. O narcotráfico agradece.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 13h32

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O triste encerramento de campanha de Pepe

Uma idosa e uma criança disputam com adultos camiseta da campanha de Pepe Lobo, com os dizeres "Primero los pobres"

Em meio a uma das piores crises políticas de Honduras e da América Latina nos últimos anos, o encerramento da campanha eleitoral do provável vencedor da eleição presidencial deste domingo, Porfirio Pepe Lobo, não esteve à altura do dramático momento histórico.

De estilo pra lá de tradicional, o showmício foi realizado na noite de segunda-feira, num campo de beisebol de Tegucigalpa. Desde o começo, repetiu o triste roteiro de transporte de eleitores, distribuição de brindes (camisetas, mochilas escolares e bolas de futebol), shows apelativos e discursos vazios.

Entre os alguns milhares de simpatizantes presentes, chamava a atenção as dezenas de crianças muito pequenas, muitas segurando cartazes bem maiores do que elas, algumas de colo. Pelo menos um grupo delas foi para lá porque só assim ganhariam mochilas escolares novas, além, é claro, das camisetas de Pepe.

O mais incrível é que as mochilas só serão usadas em fevereiro, já que as crianças e adolescentes da rede pública foram dispensados um mês antes, devido à crise política _desde meados de outubro, deixaram de estudar. E sem exame: todos os 1,8 milhão de alunos da rede pública foram automaticamente aprovados para o seguinte ano escolar.

Para piorar, a rede pública acumulou cerca de três meses de greves de professores neste ano, muitos vezes em apoio a Manuel Zelaya.

"Esses meninos não sabem nada", diz a avó Olga Maria Raudales, que foi com a filha e dois netos, de 8 e 7 anos, ao comício. "Tem da sexta série [12 anos] que não sabe nem escrever o nome.

Os netos de Olga. Ela aparece no fundo, segurando as mochilas.

Se a escola deixou de educar as crianças pobres hondurenhas, as que estiveram no comício de Pepe Lobo não receberam ali nenhum show de civismo. Pelo contrário.

Elas testemunharam, por exemplo, os adultos se empurrando e brigando para conseguir camisetas. E, no palco viram mulheres em minissaias simulando sexo com suas duplas enquanto as letras falavam explicita e machistamente em sexo, típicas dessa versão caribenha do funk carioca chamada reggaeton.

Mas teve gente que não viu nada de bailarinas nem escutou os candidatos. A catadora de lata Isabel Sirinos, 48, passou todo o tempo com os olhos no chão, procurando pedaços de madeira que mais tarde seriam usados como lenha em sua casa. Mãe de nove e avó de seis, diz que o desemprego é generalizado em sua família. O seu filho mais velho, de 34, sobrevive como carregador na feira, mas não recebe salário: o pagamento é feito com verduras e resto de frango. Ela diz que votará em Pepe e culpa Zelaya pela crise econômica do país.

Com grandes possibilidades de assumir o terceiro país mais pobre das Américas, isolado internacionalmente e afundado numa crise política, Pepe Lobo encerrou a campanha com o seu discurso de centro, recheado de ideias vagas. Falou em "mudança", em priorizar a "pessoa humana"(sic), em trabalho, em mais segurança, em melhorar hospitais, em apoio à agricultura, sempre entrecortado pelo jingle da campanha, "já falta pouco".

Na única vez em que foi mais específico, ao prometer acabar com a greve de professores, foi também a única vez em que ouviu aplausos entusiasmados. "Os professores vão honrar pontualmente as suas obrigações, que são aulas a nossos filhos e jovens", assegurou.

De perfil conservador, Pepe Lobo tem algumas semelhanças com Zelaya, de quem perdeu por pouco na eleição presidencial de 2005, quando chegou a defender a pena de morte. Assim como o presidente deposto, é do departamento agrícola de Olancho e de tradicional família de latifundiários.

Em junho, Pepe Lobo e seu partido apoiaram a destituição de Zelaya. Com o tempo, passou a se afastar do governo interino, de olho nas pesquisas que mostravam um rechaço a Roberto Micheletti e à expulsão do presidente deposto.

Com a briga interna dos liberais _Micheletti e Zelaya são do mesmo partido_, Pepe Lobo viajou em céu de brigadeiro durante a campanha eleitoral e assistiu de arquibancada o desgaste de seus adversários políticos. Resta ver, num futuro próximo, se essa mesma crise que o beneficiou eleitoralmente não inviabilizará seu eventual governo.

Saí do comicio deprimido. 

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 01h21

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Breve análise dos próximos dias

Caros, um pequeno resumo da ópera neste podcast:

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 16h13

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Fabiano Maisonnave Fabiano Maisonnave, 34, é correspondente da Folha de S.Paulo na Venezuela.

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