Da Embaixada
Da Embaixada
 

A nova guerra do futebol

Enquanto a rodada de negociações continuou empatada nesta semana, parece que Roberto Micheletti levou a melhor na disputa com Manuel Zelaya por capitalizar a classificação de Honduras à Copa do Mundo pela segunda vez na história.

A Ana Flor, que divide a cobertura comigo e é a blogueira do lado de fora da embaixada, conta que apenas três jogadores da equipe catracha não participaram da festa na Casa Presidencial, transmitida ao vivo e com direito a discurso de Micheletti recheado de metáforas entre futebol e política _é o Lula fazendo escola.


"Muitos dos que estão aqui não eram nascidos quando nossa Constituição nasceu, em 1982, ano em que participamos pela primeira vez do Mundial. Coincidentemente, 27 anos depois, essa mesma Constituição reafirmou sua vigência, quando vamos a um segundo campeonato mundial."

 

Mas a festa não foi completa para Micheletti: o encontro terminou sem uma photo-op com os jogadores, cuja maioria tem, sabiamente, evitado dar declarações para um lado ou para outro.

Dos três jogadores que fugiram da Casa Presidencial, dois, Emilio Izaguirre e Donis Escober, disseram que "não queriam se envolver com política" e outro filosofou: "Na vida, quem comete erros tem que pagar", no relato da Ana Flor.

Ontem,  foi a vez de Zelaya tentar tirar uma lasquinha da façanha catracha. Chegou até ele uma camisa assinada somente pelo capitão da equipe, Amado Guevara, que esteve na festa palaciana. Ali, se lia: "Sr. Presidente José Manuel Zelaya: de su amigo camisa 7". O presente havia sido entregue pela mãe do jogador à filha de Zelaya, diante, claro, de fotógrafos e cinegrafistas (a foto acima é da Ana).

  
Aqui na embaixada, Zelaya também se deixou fotografar com a camisa, quando revelou seu desconhecimento futebolístico. "Esse que fez o gol?", perguntou, sobre o resultado de 1 a 0 sobre El Salvador, que garantiu a classificação. "Não, é o capitão", respondeu um assessor.

 O autor do gol salvador é Carlos Pavón, provavelmente o tento mais importante do futebol hondurenho em 27 anos.

 Mas o pior veio depois: em entrevista na manhã de hoje, Guevara desmentiu que apoia Zelaya, dizendo que a assinou apenas porque sua mãe pediu e que nem sequer conhece "o amigo". "Não me interesso por política. Não apoio Mel [Zelaya] nem Micheletti. O meu negócio é jogar futebol." 


Ao contrário de vários outros países da América Central e Caribe, como a vizinha Nicarágua, que preferem o beisebol, o futebol é a paixão de Honduras. Em 1969, uma partida de eliminatória da Copa foi a faísca que provocou um confronto armado entre El Salvador e Honduras, que na época tinham intensas disputas comerciais e de território. O triste episódio ficou conhecido como a Guerra do Futebol.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 17h17

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A Bourbon Street de Tegucigalpa

Depois dos Saltimbancos no início da noite (post anterior), a madrugada foi dos jazzistas.

A palhinha começou às 4h da madrugada e durou uma hora. Os artistas, dois militares encapuzados, se apresentaram com uma corneta estilo torcida de futebol e outra que pelo menos variava as notas musicais. O palco era um morrinho ao lado de um dos muros da representação diplomática.

No público, uns dez moradores da embaixada que não conseguíamos mais dormir e  fomos assistir no terraço ao show de jazz catracho-militar. Dá para ficar mais ou menos perto do palco, coisa de uns 15 metros. Mas o problema é que os holofotes estavam virados bem para a nossa cara, prejudicando bastante a visão.

E parece que a dupla está em temporada, pois foi a terceira seguida de "cornetazo". Ah, mas aqui nunca se sabe. Jazz é improviso.

Só não avisaram que estavam proibidas fotos: o Wilson Pedrosa e eu tentamos fazer umas e acabamos sendo alvo de laranjadas dos próprios artistas. Por sorte nossa, erraram.  

"Do you know what it means/to miss New Orleans"... Agora eu sei.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 13h25

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Noite animal na embaixada

Não bastasse a frustração geral por mais um dia sem acordo, os moradores  da embaixada (26 dias já é muito tempo para continuarem se considerando hóspedes) tiveram de aguentar policiais e militares armados imitando animais e tocando cornetas. O grotesco espetáculo começou por volta das 21h e durou uma meia hora.

 Na plataforma grudada ao muro, na casa vizinha transformada em quartel  e no acampamento militar no terreno baldio de cima, militares com fuzis no ombro e policiais com pistolas no coldre guinchavam à goela solta como gato, cachorro, jumento, bode, galo, cavalo e mais uns quantos sons indecifráveis. Uma sinfonia parecida ao primeiro ensaio dos bichos do álbum Saltimbancos. Pena que, na pobre montagem local, eles nunca chegaram a se afinar.

Será que a Convenção de Viena, que assegura a inviolabilidade das embaixadas, previu militares cacarejando diante de representações diplomáticas?

PS: aos que me escreveram nesta sexta à noite, obrigado.  

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 00h53

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Diálogo só na segunda-feira

Os negociadores de Manuel Zelaya e Roberto Micheletti acabam de anunciar que não houve acordo hoje e que o diálogo será retomado na segunda-feira, mas que haverá "consultas" no fim de semana.

A briga é em torno de quem terá de avalizar um eventual pacto para a restituição de Zelaya. O presidente deposto quer que seja o Congresso, e Micheletti insiste na Suprema Corte. Zelaya calcula que ganha no Congresso, e Micheletti confia numa vitória no Judiciário.

O argumento de Zelaya é que a Suprema Corte já analisou e rechaçou o Acordo de San José no final de agosto. Trata-se da proposta feita no final de julho pela Costa Rica, na primeira tentativa de diálogo, e que foi retomada nas negociações.

Já Micheletti diz que um acordo desse tipo precisa de uma chancela jurídica, para analisar a sua legalidade.

E o prazo de Zelaya para um acordo, que venceu ontem? Como disse a mim, em entrevista publicada na semana passada, Carlos H. Reyes, candidato esquerdista à Presidência apoiado pelo presidente deposto, mas que discorda dessa história de ultimato. "Como sindicalista, não costumo usar prazo. Depois não funciona, e aí fazemos o que com ele?"

Este blogueiro confessa que está ficando cansado: hoje, completei três semanas sem sair da embaixada. Amanhã começa meu quarto fim de semana aqui. 

E do lado daí, alguém ainda aguenta acompanhar essa história?

Escrito por Fabiano Maisonnave às 22h39

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À espera 2

A convite do enviado do Itamaraty, Lineu de Paula, Manuel Zelaya dá uma rápida espiadinha na final sub-20, Brasil vs. Gana. Segundos suficientes para uma photo-op aos fotógrafos da casa _logo, a imagem estará disponível via AP, Reuters e AFP, mas espero que os frequentadores mais assíduos deste blog a vejam primeiro.

Hoje, enquanto Zelaya repete o esquema camisa-branca-colete-de-couro-e-chapéu, Xiomara de Castro, mulher de Zelaya, e a ex-ministra da Mulher Dóris Garcia se arrumaram e se maquiaram mais do que qualquer outro dia aqui na embaixada. Estão prontas para sair. Sairão?

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 16h34

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À espera

A foto acima, da Ana Flor, é de agora de manhã na região do hotel Clarion, onde estão os negociadores. A minha colega  passa quase tanto tempo lá dentro quanto eu fico aqui na embaixada. E lá como cá, o que não falta é policial.

Recapitulando: os delegados de Micheletti ficaram de apresentar uma proposta final pela manhã em torno da restituição de Zelaya. O mais provável é que, se houver consenso, o pré-acordo seja levado à tarde para os dois. E aí cada um diz se aceita ou não. Se ambos aprovam, o acordo tem de ser ratificado pelo menos pelo Congresso, o mesmo que aprovou  em peso a deposição de Zelaya, em 28 de junho. Esse é o roteiro, mas Honduras tem sido a campeã do improviso e da reviravolta nessa crise.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 13h58

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Mais um prazo para o final: hoje

Acabou por volta das 21h locais (três a menos que Brasília) mais uma reunião aqui na embaixada entre Manuel Zelaya e seus três negociadores. Na saída, Victor Meza, o porta-voz dos delegados, disse que o "ultimato" de Zelaya, que acabava ontem, foi adiado por mais um dia.

Agora, diz Meza, Roberto Micheletti tem de apresentar uma proposta "de-fi-ni-ti-va", como ele ressaltou, na manhã de hoje, sexta-feira. Depois, Zelaya e seus assessores analisam e dizem se aceitam ou não à tarde.

Meza voltou a afirmar que o único tema sobre a mesa é a restituição de Zelaya à Presidência, afastando especulações de que ele vai para o exílio ou de um governo sem ele ou Micheletti.

Nessa montanha-russa das negociações em Honduras, não dá para adivinhar nada. Mas os dois holofotes instalados pelos policiais diante da embaixada já estão acesos e apontados para cá.

 

 

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 00h48

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Policiais e militares à vontade

 

Acampamento na plataforma diante da embaixada, churrasquinho na laje da casa vizinha tomada pelos militares. Cenas de um um cerco que não acaba em meio a mais um dia de negociações que não terminam.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 23h03

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1.001 maneiras de dormir - jornalistas

O rapaz da foto acima é o peruano Carlos Guerrero, cinegrafista da agência AP, numa época em que andou gripado. Carlos, que mora na Bolívia e foi deslocado pra cá, é um dos jornalistas que estão na embaixada desde o Day One, o já distante 21 de setembro.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 16h55

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O uso político do futebol

Este blog acaba de virar uma parceria: Ana Flor, minha colega extramuros da Folha, fará a parte "De Fora da Embaixada", como alguns leitores haviam sugerido. Abaixo, o que ela escreveu sobre as comemorações da noite pela classificação de Honduras para a Copa do Mundo:
 Futebol e política sempre foram paixões capazes de mover massas. Aqui em Honduras, o futebol provou nas últimas horas ter mais habilidade de unir um país dividido.
As ruas de Tegucigalpa ficaram em festa na noite de ontem. Parecia os brasileiros comemorando a conquista da Copa do Mundo. Para os hondurenhos, tanta celebração foi merecida pela conquista suada do tíquete para ir ao campeonato de 2010.
Minutos depois da vitória, Roberto Micheletti foi para a TV. Pela primeira vez sorria. Não teve pressa, conversou com os repórteres, saudou os hondurenhos. Não falou em política. Fez do dia de hoje feriado nacional.
Hoje, a festa continua. Milhares de pessoas nas ruas.
Micheletti se aproveitou mais uma vez para capitalizar: chamou os heróis da seleção para um almoço na Casa Presidencial.
Nesse momento, faz um show transmitido ao vivo pelas televisões.
Ninguém mais se lembra de Zelaya...
 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h34

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Os holofotes e as negociações

 

Ontem à tarde, os jornalistas que resistimos na embaixada estávamos na sala onde trabalho esperando o final da reunião de Manuel Zelaya com seus delegados. Como aqui não é o Vaticano e não tem a fumacinha branca, estávamos buscando algum sinal.

Acho que foi o Carlos, o Guerrero da AP, quem primeiro percebeu que a torre com poderosos holofotes do outro lado da rua, que passa toda a noite acesa, estava sendo baixada. Fim do cerco? Acordo fechado? Já começamos a falar em arrumar as malas, a imaginar a primeira coisa faríamos do lado de fora (essa parte eu não posso contar).

Mas o entusiasmo durou pouco: uns dez minutos depois, a torre volta a subir. E é colocada mais alta do que antes.

Logo depois, Zelaya diz que ainda não há acordo, apenas um texto em discussão. Em seguida, já na noite de ontem, Micheletti afirma que é preciso da aprovação da Justiça.

 Passa a noite, holofotes ligados, Honduras se classifica para a Copa, todos felizes, e de manhã uma surpresa: os policiais instalam uma segunda torre de holofotes diante da embaixada, desta vez perto do muro, mais ou menos como fizeram com a segunda plataforma.

Pouco depois, os delegados suspendem a reunião, por falta de acordo. Os de Zelaya estão neste momento reunidos com ele, e o carômetro (invenção venezuelana para medir o humor político por meio da expressão facial) não estava muito bom.

O acordo, é certo, nunca esteve tão perto. Mas não se sabe ainda se está perto.

Já os holofotes estão a ponto de ser alçados à categoria de termômetro político.

 

PS: a foto acima é ruinzinha, mas, apertando o olho, dá pra ver os novos holofotes por entre as árvores.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h25

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Cerco comemora a classificação hondurenha!

 

À noite, fiquei devendo uma foto da comemoração do outro lado do muro do triunfo da seleção catracha, recém-classificada para a África do Sul. Para o equilíbro informativo deste blog, aqui está.

Estas imagem imagens são de agora de manhã, do outro lado da rua da embaixada. A de cima fotografei por meio da já famosa janelinha verde no portão da frente.E a de baixo foi feita lá de cima do muro da entrada.

Não dá para saber se o torcedor anônimo é policial e militar. Só que  é hondurenho e está feliz da vida com a façanha futebolística.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 12h43

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Lembra a plataforma?

As duas leitoras que acompanham este blog com se lembrarão dos três posts dedicados à colocação de uma plataforma mecânica diante da embaixada, entre a sexta e o sábado. A engenhoca havia sido colocada na calçada do outro lado da rua, com um ou dois policiais ou militares vigiando com binóculos. Rapidamente, a plataforma se incorporou à paisagem, e ninguém mais presta atenção.

Tanto que, dois dias atrás, na segunda-feira, os policiais colocaram outra plataforma, ainda mais perto, do lado de cá da rua. A distância com relação ao muro é de uns três metros.

Na manhã de ontem, finalmente fui lá tirar uma foto para colocar no blog. Preocupado em saber se já estou cansado demais para prestar atenção em notícia, perguntei ao Edgard e ao Esteban, fotógrafos respectivamente da Reuters e da AP, se já haviam fotografado a novidade. Nenhum tinha.

A gente se acostuma com cada coisa.

PS: na foto acima, o enviado do Itamaraty, Lineu de Paula, faz a sua corrida circular matinal no terraço enquanto o policial da segunda plataforma checa o celular.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 01h34

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Honduras na Copa!

O acordo político ainda não saiu, mas finalmente os dois lados de Honduras gritaram juntos nesta noite: o país acaba de se classificar para a Copa do Mundo, o que não acontecia desde 1982, a sua única participação até agora.

Aqui na embaixada, a vitória foi comemorada dos dois lados do muro. Dentro, os "hóspedes" colocaram na garagem a minúscula TV, emprestada do guardinha da segurança. Fora, os militares montaram um aparelho na esquina de baixo - tentei tirar uma foto, mas é de noite, e a minha câmera é ruinzinha. A que está acima é dos militantes e assessores aqui do meu lado.

Como se fosse a sina de Honduras, novamente o seu destino estava nas mãos dos gringos. Pois a classificação só aconteceu porque a seleção americana empatou, aos 49 minutos do segundo tempo, seu jogo contra a Costa Rica, concorrente direta dos catrachos, que hoje fizeram a sua parte e derrotaram os salvadorenhos.

 Depois de meses de polarização e violência, Honduras dormirá (ou ficará acordada celebrando) feliz hoje.

Atualização: em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente interino, Roberto Micheletti, acaba de decretar feriado nacional hoje.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 23h34

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Acordo mais perto que nunca

Os negociadores conseguiram hoje à tarde um texto consensuado sobre a restituição de Manuel Zelaya. Aqui na embaixada, os delegados do presidente deposto saíram dizendo que ele aprovou o texto, com pequenas modificações.

Já Roberto Micheletti disse, em entrevista coletiva, que prefere que o acordo seja ratificado pela Corte de Justiça, enquanto Zelaya preferiria o Congresso.

Nesta crise hondurenha, o final parece que nunca chega, mas uma solução definitiva nunca esteve tão próxima como hoje.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 20h26

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Onde o Itamaraty errou

Ontem à tarde, recebi um e-mail do veterinário hondurenho Gustavo Valenzuela. Com um português aprendido na época em que estudou no Recife, me perguntou se o serviço consular estava funcionando aqui em Tegucigalpa. Ele planeja viajar a Foz do Iguaçu para um congresso e precisa tirar o visto.

Não, Gustavo, o consulado não está funcionando, com a exceção de casos emergenciais de brasileiros. Para o seu caso e de outros hondurenhos que ligam quase diariamente aqui, a orientação é para que busquem o visto em El Salvador (320 km de Tegucigalpa) e na Guatemala (740 km!).

Culpa do Zelaya, hospedado há 24 dias na embaixada? Um pouco, claro. Mas a maior responsabilidade é de uma decisão mal pensada do Itamaraty.

Desde o dia 5 de setembro, o Brasil passou a exigir visto a todos os hondurenhos, não importa se pró-Zelaya ou pró-Micheletti, se político ou surfista, se estudante ou turista. Punição coletiva. Na cabeça do Itamaraty, era mais uma demonstração cabal de que o Brasil não reconhece o governo interino e apoia a volta de Zelaya.

Pois o governo Micheletti obviamente não caiu por causa disso. Já o Brasil, recém-promovido a ‘big player‘ mundial, ficou aqui com uma imagem mais parecida à dos Estados Unidos, que suspenderam a emissão de vistos em Honduras e são tristemente conhecidos em todo o planeta por cobrar e humilhar viajantes que buscam seus arrogantes serviços consulares.

Vá lá que, no caso dos EUA, até faz sentido. Muitos da elite do pais, cuja ampla maioria apoia Micheletti, tem casas e negócios no seu principal parceiro comercial. Mesmo assim, punir a todos por causa de uns me parece um erro.

Já na América Latina, nem a Venezuela de Chávez, o aliado mais radical e mais próximo de Zelaya, começou a pedir visto de hondurenhos.

"Se eu não pegar o visto, continuo a minha vida normal, mas deixo de gastar dólares no Brasil", diz Gustavo, que trabalha numa grande multinacional em San Pedro Sula.

Depois do Itamaraty, foi a vez de o governo interino, em reciprocidade, passar a exigir vistos de brasileiros. Com isso, dificultou enormemente a chegada dos jornalistas que viemos a Honduras para cobrir a crise.

Quando cheguei aqui, via El Salvador, tive de esperar oito horas na fronteira para que me dessem um salvo-conduto _não tive tempo para tirar visto. Ali, os funcionários de migração contaram que, três dias atrás, dois mochileiros brasileiros desavisados foram impedidos de entrar no país.

Volto a repetir que o governo Lula não podia fechar a porta da embaixada a Zelaya, pois o considera o presidente legítimo de Honduras, assim como quase todos os países do mundo. E que tampouco participou da aventura clandestina do presidente deposto para chegar até aqui.

Mas, se o Itamaraty olhasse com um pouco de atenção a casos como de Gustavo e de vários outros, tanto de hondurenhos quanto de brasileiros, poderia ao menos deixar de exigir vistos enquanto Zelaya não devolve a embaixada. Do contrário, continuará pagando o pato quem não merece.

Que eu saiba, Micheletti não estava planejando passar férias no Rio. E Zelaya, que "entrou" em território brasileiro há mais de três semanas, não precisou tirar visto antes...

Escrito por Fabiano Maisonnave às 03h39

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João Cabral passou por aqui

Esta embaixada já viveu dias mais inspirados: entre 1982 e 1985, o poeta e embaixador João Cabral de Melo Neto morou na casa,  então a residênca oficial do representante diplomático brasileiro.

A história da passagem do autor de "Morte e Vida Severina" por Tegucigalpa pode ser lida hoje, na Folha, cujo acesso, por enquanto, é gratuito: www.folha.com.br. Procurem a capa do jornal impresso.

PS: acima, a sua assinatura numa certidão de nascimento de 1982, arquivada no setor consular .

Escrito por Fabiano Maisonnave às 16h32

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Zelaya responde - como escolher um chapéu

 

Já vão me acusar de novo - não sou jornalista sério. Mas confesso que aprendi e me surpreendi muito com a resposta de Zelaya.

 

Pergunta - Como escolher um bom chapéu? (Fabiano Maisonnave - Embaixada do Brasil em Tegucigalpa)

 

Manuel Zelaya - Um chapéu é escolhido primeiro com a medida da sua cabeça. Tenho uma cabeça de 7 1/8. O chapéu tem entrar até quase o nível das orelhas. E depois a aba do chapéu tem de ter espaço suficiente para lhe proteger da chuva e do sol, que é o objetivo do chapéu. E uma copa em cima da cabeça que esteja de acordo com a sua cara. Se a copa for muito alta, a cara será pequena; se a copa é muito pequena, a cara ficará muito grande. Então o chapéu tem de estar adequado à dimensão da sua cabeça e da sua cara e servir como uma indumentária do seu corpo. Assim como há sapatos para proteger os pés, camisa para proteger o seu dorso e calças para proteger as partes inferiores do seu corpo, há o chapéu para proteger a sua cabeça.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 04h43

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Zelaya responde - hóspede do Brasil

 

Pensei que esse assunto iria render mais perguntas. Terceiro bloco:

 

 

Pergunta – O sr. não sente que está abusando um pouco da nossa hospitalidade ao querer impor um número de correligionários dentro da embaixada? (Erica Duarte - Buenos Aires, Argentina)

Manuel Zelaya - O problema é que, quando entro na embaixada, eu peço permissão. Eu não sabia que a embaixada não tinha segurança, só há uma pesssoa designada, e sem pistola. Então, logicamente, quando veio a repressão dos militares contra as pessoas que nos estavam acompanhando na rua, eles entraram na embaixada buscando proteção. Havia 313 pessoas, e agora há 31 pessoas mais os jornalistas. São as pessoas que praticamente os serviços da embaixada, sem armas e pacificamente. Eles estão em caráter de protegidos, de refugiados. Há 15 pessoas na manhã e 15 pessoas à noite que cuidam dos limites da embaixada, vigiam, limpam e fazem o protocolo. Não há gente armada.

 

 

Por quanto tempo o sr. pretende continuar na embaixada? (Delcimar Ferreira – Poá, Brasil)

 

Zelaya - Eu queria sair nesta tarde! Estou esperando que o apoio do Brasil sirva às democracias da América. A mensagem do presidente Lula, de Celso Amorim, de Marco Aurélio é para dizer que já não queremos golpe de Estado, vamos a lutar contra quem dê golpe de Estado, e vamos lutar com todos os meios pacíficos para revertê-lo. É uma mensagem aos militares, aos grupos da elite econômica que usam os militares, é uma mensagem aos grupos midiáticos que desestabilizam o país para depois promover o golpe de Estado. É uma mensagem a todos aqueles que tentem vulnerar, romper e destruir a democracia. A democracia é um bem do povo, e a defesa feita pelo Brasil e que estamos fazendo é um assunto que compete à vida da América.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 03h47

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Zelaya responde - política externa

Em seguida, as perguntas e respostas sobre política externa:

Pergunta - A premiação do presidente norte-americano, Barack Obama, com o prêmio Nobel da Paz significa a vitória da diplomacia sobre a tirania? Como essa nova tendência, que enfatiza a conversa e o multilateralismo, pode contribuir para a resolução da crise política em Honduras? (Caio Perona - Belo Horizonte, MG)

Manuel Zelaya - Considero correto o prêmio para Barack Obama para que ele leve a cabo e realize a sua proposta. Os seus grandes desafios para a paz são Afeganistão, Iraque e Honduras. Tirar a violência desses países é o grande desafio de Obama. Assim como eliminar as armas nucleares.

Pergunta - Ao mesmo tempo em que existe apoio do governo brasileiro ao governo constitucional, há, por outro lado, o envolvimento do Pentágono com as forças econômicas e militares do atual regime autoritário. Qual é a sua resposta a esses críticos, que colocam o futuro político de Honduras na posição de simples joguete de forças políticas mais poderosas? Paulo Ugolini (Curitiba - PR)

Zelaya - Evidentemente que quem pensa assim é um antidemocrata, alguém simpatizante dos golpes de Estado. Brasil, EUA, Europa e toda a América estão defendendo um direito dos pobres, o direito à democracia. Os grandes poderes do mundo não precisam da democracia. As grandes multinacionais não precisam de democracia, eles trabalham com ditaduras ou sem ditaduras. Os pobres precisam de democracia para defender as suas conquistas e continuar lutando pelo bem comum. Quem rompe a democracia violentamente com Estado militar e coloca títeres civis atenta contra os direitos universais dos seres humanos. A democracia é um direito universal.

 

Pergunta - Os EUA deveriam estar fazendo um melhor e mais eficiente trabalho contra o golpe, se é que é de interesse americano, e se não, por quê? (Maurício Destri - São Paulo, SP)

Zelaya - Os EUA fizeram o que quiseram fazer. Podem fazer mais, mas estou satisfeito com que fizeram. Se puderem fazer mais, o mundo lhes agradecerá. Se não fizerem mais, o mundo vai reclamar se não revertem esse golpe do Estado.

Eleger um presidente que depois Micheletti vai tirar com as Forças Armadas me parece um escárnio. Os Estados Unidos, se permitem esse escárnio em Honduras, verão muitos golpes de Estado na próxima década, na América.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 03h46

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Zelaya responde a vocês - parte 1

Caros leitores, eis as respostas do presidente deposto, Manuel Zelaya, às perguntas de alguns de vocês.

Para melhor organização, separei a entrevista em quatro blocos: crise interna (abaixo), política exterior, situação da embaixada brasileira e...chapéu (fui eu, confesso).

Como sou novo nessa tarefa de editor de leitores de blog, explico que modifiquei um pouco algumas perguntas para que ficassem mais claras. Não reclamem, o meu chefe faz isso todo o dia, e o resultado é quase sempre para melhor. E também coloquei em negrito as frases que julguei mais interessantes.

A entrevista foi feita ontem, segunda-feira, por volta das 14h locais (três a menos que Brasília), num dos quartos que ele usa para reuniões. Foi rápida, durou uns dez minutos, e ele não autorizou fotos. Não precisei fazer muito: ele agarrou a folha onde estavam as perguntas, as lia em português mesmo e respondia. A minha função foi a de segurar o microfone para vocês. Mas a ideia era essa mesmo.

Pergunta - Se o senhor voltar ao poder, não será difícil lidar com as instituições? Como conviver Legislativo, Judicial e Militares que, na maioria, apoiam o golpe? (Paulo Fernandes - Barcelona, Espanha)

Manuel Zelaya - A diferença entre a democracia e a ditadura é que a democracia permite a divergência, a separação de Poderes, as opiniões encontradas, e as debate e as soluciona pacificamente. A ditadura não permite a separação dos Poderes, os Poderes se exercem verticalmente. E, além disso, as discussões são resolvidas violentamente. Eu não tenho problema em conviver com um Legislativo que tenha opiniões diferentes à minha.

Honduras é um país em que a Justiça está politizada há cem anos. Os juízes são nomeados pelos políticos, os magistrados são nomeados pelos políticos. E têm estado contra mim desde que cheguei ao governo. Nesta Corte de Justiça, e na anterior também. E não só estes promotores, os anteriores também. E eu governei tranquilamente porque, como não tenho delitos nem infrinjo a lei, não tinham nada com que me atacar. E o que eles fizeram foi cometer um delito, um golpe de Estado.

Pergunta - Por que não apoia o calendário eleitoral, que já estava previsto? Shirlei Horta (São Paulo - SP)

Zelaya - Um democrata apoia as eleições. Eu sou democrata e sou pacifista. Os que não apoiam a democracia são as ditaduras. Eu apoio o calendário eleitoral, mas as eleições, sob uma tirania, serão legais? Serão transparentes? Serão eleições livres com repressão, perseguição política? Numa tirania, as eleições são uma fraude e um escárnio para a sociedade. As eleições que reconhecemos é com a restituição do presidente e da democracia. Senão, serão eleições que desconhecemos, tanto o seu processo quanto os resultados fraudulentos.

Pergunta - Qual é o plano B caso não haja acordo até a época das eleições ? José Vitor (São Paulo, SP)

Zelaya - O plano é que haja eleições. O problema se resolve com eleições transparentes, democráticas, livres e em igualdade de condições. Mas as eleições sob tirania são desconhecidas pelo povo e pela comunidade internacional.

 

 Pergunta - O senhor não acha que a sua atitude de chamar os hondurenhos para uma revolta (de dentro da embaixada brasileira) contra o governo golpista não fez mais mal do que bem? Não seria o caso de ser mais moderado e procurar uma negociação e formar um governo de coalizão? (Ricardo Castilho - Florianópolis)

Zelaya - Nós não praticamos a violência, praticamos a não violência. Eu sou quem apresentou o documento da não violência diante da OEA. E faço chamados ao povo para que protestem contra a opressão. Isso é um direito do povo, é parte da Carta constitutiva dos Direitos Universais. É parte da Carta Democrática da OEA. O direito a protestar pacificamente é um direito ao qual não vamos renunciar nunca. A embaixada do Brasil não é um quartel político, aqui é um campo de concentração neonazi. Aqui estamos rodeados por militares e nos cortam as chamadas telefônicas. Esta embaixada está protegendo as nossas vidas para não sermos assassinados.

 

Pergunta - O que aconteceria ao país se o senhor fosse morto dentro da embaixada? Antonio Reyes (El Progreso, Honduras)

Zelaya - Seria uma crise maior do que a que se tem hoje no país. Uma crise e uma tragédia. Um magnicídio e um genocídio.

 

Pergunta - Por que a maioria dos principais meios de comunicação de Honduras estão agora com Micheletti? Por pressão ou convicção?  (Paulo Fernandes, Barcelona, Espanha)

Zelaya - Sempre estiveram com os mais conservadores. Os meios de comunicação são grandes empresários, donos de bancos, produtores de armas, produtores de medicina e sempre estarão com os conservadores, eles não estão interessados na democracia. Não há liberdade de imprensa nem liberdade de expressão. Esses são os grandes meios de comunicação. Os meios alternativos de Honduras foram cancelados pela ditadura.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 03h38

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Zelaya diz que a foto é falsa - e você?

O repórter fotográfico do Estadão Wilson Pedrosa, meu inimigo íntimo aqui na casa, disparou hoje a Manuel Zelaya uma pergunta que muitos hondurenhos gostariam de ter feito: é verdadeira esta foto acima, que circula há meses pela internet, onde ele, bem mais jovem, aparece como uma espécie de Rambo catracho*?

Muitos dizem que a imagem foi tomada na sua terra natal, o departamento de Olancho, uma espécie de Texas hondurenho _povoado, dizem, por gente de chapéu que gosta de armas (eu nunca fui).

Zelaya olhou a foto no computador e disse que era ele _ mas só do pescoço para cima. O resto, jurou, é montagem.

Eu tenho cá as minhas dúvidas.

*Catracho = hondurenho

 

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 21h13

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Embaixada também é cultura

 

Os policiais e militares deram um tempo, o Zelaya ficou de responder às perguntas dos leitores deste blog amanhã, estamos em pleno feriadão e as negociações só serão retomadas na terça. Está na hora do post cultural.

Pois comecemos pela parte mais interessante: a biblioteca. Trata-se de um pequeno quartinho forrado de estantes com livros. Quase todos têm no mínimo 30 anos de edição, mas não importa: a maioria dos clássicos está ali, de Gilberto Freyre a Machado de Assis.

O mais legal é que há vários autores brazucas traduzidos ao espanhol, algo raríssimo de conseguir (sempre tento achar traduções para dar aos amigos cucarachos, mas só o Rubem Fonseca é fácil de achar. Pablo Conejo não conta).

Empolgado, peguei algumas traduções de autores que adoro e saí distribuindo (responsabilidade minha, Catunda!). O Esteban, peruano da AP, grudou num livro de contos do Machadão, para meu orgulho pátrio. Por outro lado, a Maria José, da Telesur, não engatou o "Vampiro de Curitiba", do meu escritor favorito, Dalton Trevisan. E a Adriana, também da Telesur, se empolgou "O Homem que Sabia Javanês", esse conto magistral do Lima Barreto.

Xiomara, a mulher de Zelaya, ficou com "Morte e Vida Severina", de João Cabral, mas desconfio que ainda não abriu.

Infelizmente, a alegria durou dois dias: a biblioteca se transformou num dos quartos de Zelaya, por ser o cômodo mais protegido, embora não faltem ácaros e pó acumulados sobre os livros. Fim da festa literária.

Mas antes da mudança de função da biblioteca ainda encontrei uma preciosidade: uma edição bastante antiga do "Grande Sertão: Veredas". Peguei porque estava quase terminando de lê-lo, mas tinha deixado no hotel porque era muito grande, as prioridades no presídio são outras. Aí mostrei pro Lineu de Paula, o diplomata de plantão, que, ao abrir, encontrou a assinatura do próprio, Guimarães Rosa. Foi um presente dele a um tal embaixador Bolívar.

Guardiã de algumas preciosidades, o acervo da embaixada também acumula inutilidades. Por que a representação brasileira de Tegucigalpa precisa ter o guia telefônico do Rio Grande do Norte de 1988? É o contrário do "Grande Sertão": quanto mais velho, mas inútil fica. (Perdão pelo itálico, mas não consigo tirar!)

Escrito por Fabiano Maisonnave às 23h46

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1.001 maneiras de dormir - a de Zelaya

 

 

A imagem acima é de Edgard Garrido, chileno de Puerto Varas e fotógrafo da agência Reuters. Se você não a tinha visto ainda, é por que não estava no planeta Terra nas últimas semanas _é, de longe, a foto mais emblemática da hospedagem de Manuel Zelaya na embaixada brasileira, que amanhã completa três semanas.

Garrido está aqui na embaixada desde o Dia Um. Com voz baixa  e "ojos de yo no fui", como bem definiu a Adriana Sivori, da Telesur, é companheiro ponta-firme e de humor sutil como um bom chileno. A seguir, a história da foto em suas palavras:

"A foto foi tomada na tarde de terça-feira, 22 de setembro, quando Zelaya dormia uma sesta.

"Até esse dia, ele ainda não tinha um colchão inflável e dormia sobre essas cadeiras. Segundo sei, pelo próprio presidente, ele estava dormindo sem o chapéu sobre a sua cara e, devido à forte luz que atingia o seu rosto, acordou e decidiu tapá-lo com o chapéu.
 
"Tive acesso ao quarto porque um grupo de simpatizantes me pediu para tomar fotos tipo documento de todas as pessoas que estavam nesse dia dentro da embaixada (aproximadamente 300 ). Segundo eles, as fotos seriam enviadas à ONU, inclusive os jornalistas. Já quase havíamos terminado de tomar fotos de todos, mas faltavam alguns que acompanhavam Zelaya dentro do seu quarto. Então me autorizaram a entrar e foi onde o vi dormindo e consegui a foto, sem que a sua segurança se desse conta.
 
"No dia seguinte, ficou sabendo da publicação dessa foto em muitos meios do mundo e me chamou. Pensei que estaria contrariado, mas elogiou a imagem."

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 22h40

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1.001 maneiras de dormir - a soneca policial

 

A foto acima é desta manhã, de um policial que estava na frente da embaixada. Ele não gostou muito do flagrante: alertado por um colega, acordou, também tirou uma foto minha e, com a mão passando pelo pescoço, mostrou que planeja um destino a la Danton para mim.

Escrito por Fabiano Maisonnave às 12h47

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Atualização da entrevista e da manhã

Caros leitores, como é feriadão, estenderemos o limite do tempo para o envio de perguntas a Zelaya até as 18h, horário de Brasília (15h em Honduras). De qualquer forma, já temos perguntas em número suficiente.

Aos que leram o post sobre a noite, dormimos todos bem. E agora a pressão psicológica se resume a um policial tocando uma espécie de alarme do outro lado da rua. Assim de infantil.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 12h37

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Cerco inédito de policiais e militares em pleno jogo

 Enquanto escrevo, em pleno horário do jogo que decide o futuro de Honduras nas eliminatórias da Copa do Mundo, dezenas de policiais e militares entraram em formação na rua diante da embaixada. Os policiais tinham escudo e capacete. No muro lateral da direita, mais baixo, outros dois policiais estão de pé a cerca de um metro da divisão.

 Horas antes, os militares instalaram poderosos holofotes, como se a partida Honduras vs. EUA fosse ser jogada aqui.

Do lado de dentro, a internet de banda larga saiu do ar _só funciona via celular.

Em 15 dias que estou aqui, nunca havia ocorrido nada parecido.

A movimentação deixou o pessoal do Manuel Zelaya dividido: metade foi verificar o que estava acontecendo e outra metade não desgrudava da pequena e única televisão disponível.

Apesar do temor de ser morto, Zelaya parece que gosta bastante de futebol: um dos assessores chegou a dizer que estavam "preparando bombas de gás lacrimogêneo" (eu não vi). "Deixem que entrem aqui então", disse Zelaya, sem tirar os olhos do jogo. Poucos minutos depois, porém, ele deixou a garagem onde estava a TVzinha e e subiu.

Continuo acreditando que nunca invadirão a embaixada e que se trata de pressão psicológica. Mas, estando num país que entrou em guerra após uma partida de eliminatórias de Copa do Mundo (1969)...

Três fotos abaixo: Zelaya assistindo ao jogo, os militares concetrados na rua da frente e os policiais a um metro do muro da embaixada.

PS: Honduras ia perdendo 3 a 2.

Atualização às 22h40 (1h40 de domingo em Brasília). Honduras perdeu mesmo o jogo: 3 a 2. Uma pena.

 Já o cerco continua. Lineu de Paula, o enviado de Amorim, acredita, como este blogueiro, que não passa de mais uma incômoda pressão psicológica.

E a internet do prédio voltou a funcionar (era um problema em todo o bairro).

 

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 01h00

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Fabiano Maisonnave Fabiano Maisonnave, 34, é correspondente da Folha de S.Paulo na Venezuela.

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