A fronteira Brasil-Honduras

Todos os dias, Xiomara, mulher de Manuel Zelaya e espécie de primeira-ministra da republiqueta da embaixada, sai até a parte da frente do prédio para acompanhar a entrada de comida e a saída de "hóspedes". Costuma dar uma voltinha até o outro lado da rua, fala com os policiais e militares mais simpáticos e fica de olho em tudo o que ocorre.
Pois hoje ela teve uma surpresa: um policial lhe disse que só podia ficar em cima da calçada, teoricamente território brasileiro _o asfalto já fica em Honduras. Na foto acima, os seus pés, vigiados por botas policiais, estão a milímetros de cometer uma desobediência civil.
Tomada de surpresa, Xiomara chegou a dizer: "soy brasileña". Depois, se retificou afirmando que era "invitada" e "hondureña hasta la muerte".
Não que haja, em tese, nenhum problema para Xiomara ir ao seu país: ao contrário de Zelaya não pesa nenhuma acusação contra ela.
O incidente pseudodiplomático ocorreu no final da manhã, quando mais seis hóspedes voltaram pra casa, após uma rigorosíssima revista de cada um. Pelos meus cálculos, estamos em 54 almas aqui, mas hoje à tarde deve sair a lista oficial. O Itamaraty quer no máximo 30, mas está difícil, Zelaya não abre mão de pessoas em número suficiente para vigiar o perímetro inteiro da embaixada durante as 24h do dia.
PS: aos que gostam de notícias de roubo, informo que o Lourival, repórter do Estado, ficou sem o seu Ipod e o seu rádio. Ambos haviam sido proibidos de entrar na embaixada e ficaram sob custódia policial. Quando ele saiu da casa ontem, cadê?
Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h42
Pergunte ao Zelaya!
Aos leitores que ainda me acompanham e aos que têm reclamado de uma entrevista com Manuel Zelaya, estejam convidados a enviar perguntas ao hóspede mais ilustre da embaixada, que acaba de concordar em dar uma exclusiva a vocês.
As regras: 1) não vou retransmitir perguntas ofensivas; 2) quando houver perguntas repetidas, escolherei a que estiver mais clara ou as unirei em uma; 3) caso haja um número excessivo de perguntas, vou até o limite de seu tempo; 4) enviem nome, sobrenome, e-mail e onde estão; 5) as perguntas podem ser escritas também em espanhol e inglês; 6) tentativamente, o prazo-limite para o envio é domingo (amanhã) até as 10h, via comentário; 7) sejam mais criativos do que nós, jornalistas (não é difícil)!
De minha parte, me comprometo a transcrever e a traduzir as respostas na íntegra aqui neste espaço.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 14h42
O turno do sargento Garcia
A plataforma continua ali na frente da embaixada, mas pelo menos durante a tarde quem estava lá tinha senso de humor e do ridículo da situação. Para deleite dos jornalistas que não tiveram quase nada para fazer nesta sexta, os dois policiais se esmeraram em fazer gracinhas para as lentes: davam tchauzinho, riam, tiravam o capacete e fingiam arrumar o cabelo, usavam o binóculo ao contrário e outras poses _vejam o "ensaio fotográfico" abaixo. O gordinho da esquerda era o mais animado e já recebeu o apelido de Sargento Garcia do Wilson Pedrosa, fotógrafo do Estadão que também vai passar o feriadão aqui na casa.
Mas acabou o horário do sargento Garcia, e os que vieram já não tinham mais graça nenhuma. É mais ou menos como as negociações sobre o fim da crise política, a cada hora o humor está de um jeito, transformando Honduras numa enorme montanha-russa emocional.
A nota triste deste dia modorrento foi a despedida do pessoal da Telesur, que estava desde o começo e agora voltam para a Nicarágua, base da equipe. O Lourival, do Estadão, também desceu do barco e subiu no avião. Com outras saídas mais, a embaixada tem agora 60 "hóspedes". Ainda é muito.



Escrito por Fabiano Maisonnave às 00h45
Quando o sol bater na janela do meu quarto
Duas fotos desta manhã.


Escrito por Fabiano Maisonnave às 11h29
1.001 maneiras de dormir - terceira parte

O Alejandro Josué Carcamo, segurança e também fotógrafo de Zelaya, é o campeão das cochiladas difíceis. Foi ele quem inagurou a série e parece que irá fechá-la também. Cada dia ele encontra um jeito, sem nunca repetir de posição.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 03h15
Militares trazem engenhoca
Comecei a escrever este post por volta das 22h20 (horário hondurenho), ao som de uma batucada (mal)feita no rifle por um militar suspenso a cinco metros de altura do chão por uma plataforma. Ele está posicionado agora mais ou menos diante do quarto e da sala onde ficam respectivamente Manuel Zelaya e os jornalistas. É uma distância não maior do que 20 metros. Sim,é tão surreal como soa. A novidade começou lá pelas 18h30, quando policiais e militares encapuzados trouxeram a plataforma, que lembra aqueles carrinhos que o Austin Powers dirigia no laboratório do Doutor Evil. Pois a habilidade deles com a maquininha era parecida à do super agente: lhes custou algo como duas horas para que a plataforma subisse, sob o olhar atônito das pessoas da casa que acompanhavam a cena pelo balcão. Uns ficaram assustados; outros acharam patético _eu fico com os dois. Às 20h30, eles finalmente conseguiram colocar a plataforma lá no alto. Assim que atingiu o máximo, o policial acendeu a mira de seu rifle, e uma luzinha branca passeou pela fachada da embaixada. Ao seu lado, o militar, também armado, começou a batucadinha irritante e intermitente. Pouco depois, o próprio Zelaya foi ao balcão dar uma olhadinha, sem antes mandar que todas as luzes do primeiro andar fossem apagadas, por precaução. A OEA foi acionada para ver se desmontavam a coisa, mas até agora nada. Dia sim, dia não, o cerco policial-militar inventa uma irritaçãozinha para aumentar a pressão sobre Zelaya e a embaixada. Continuo acreditando que a casa não será atacada nem invadida. Mesmo assim, não vai ser nada agradável dormir daqui sabendo estar ao alcance de rifles empunhados por encapuzados (um tinha o rosto coberto). Pelo menos a batucada parou agora. 
Escrito por Fabiano Maisonnave às 02h22
Nota a la prensa hondureña
A los "reporteros" que están usando este blog para tergiversar, inventar, y mentir, les ruego, por favor, que dejen de hacerlo ya. Esa manera cobarde de ejercer politica partidaria en nombre del periodismo sólo hace daño a mi trabajo, informa mal a sus lectores, y alimenta la polarización en un ambiente que ya es demasiado complicado. Hoy salieron dos piezas de ficción vestidas de periodismo. Lo más increíble y surreal es que, aunque competidores, los diários "La Prensa" y "El Heraldo" atribuyen a mi las mismas frases e informaciones falsas. Quien sea el que inventó y el que copió, no me interesa, son dos pésimos ejemplos de falta de ética periodistica. Ambos ponen en mi boca frases que nunca, jamás he dicho o escrito. De donde sacaron que "En la embajada de Brasil roban para sobrevivir al encierro" o que "ladrones y víctimas están adentro, ya que del edificio nadie entra ni sale fácilmente"??? Donde recogieron la información en este blog de que "los seguidores de Zelaya se negaron a compartir la comida que la Organización de las Naciones Unidas, ONU, envió a la embajada con los empleados brasileños que prestaron para cuidarla."??? Yo si dije que hubo robos en la embajada, pero eso es de casi dos semanas atrás, cuando el innecesario y, según la ONU, ilegal cerco policial y militar no dejaba pasar cosas muy básicas, como cepillos de dientes, y la embajada estaba más llena. Si, robaron mi toalla, pero, como la información está publicada sin describir el bloqueo en que vivimos aqui, con tantas restricciones, la história se queda por la mitad y con clara intención política, y no de informar. Finalmente les pido que, si de hecho quieren usar mi información, que consigan un traductor de portugués-español y/o por lo menos pongan un link de mi blog para que los lectores puedan accederlo directamente. A quienes le gusta ficción, siguen los links de las notas http://www.laprensa.hn/Apertura/Ediciones/2009/10/08/Noticias/Denuncian-robos-dentro-de-sede-diplomatica http://www.elheraldo.hn/Especiales/Honduras%20en%20contra%20de%20la%20ilegalidad%20del%2004%20de%20septiembre%20de%202009/Ediciones/2009/10/08/Noticias/Robos-en-sede-diplomatica-de-Brasil
Escrito por Fabiano Maisonnave às 13h47
Procura-se um novo lar para Zelaya
Com a crise aparentemente longe do fim, os representantes diplomáticos exortaram o governo interino, de Roberto Micheletti, a achar uma solução para o acampamento de Zelaya na embaixada brasileira, que já dura 17 dias, sob forte cerco militar. O assunto foi levantado pelo secretário de Estado de Assuntos Exteriores do Canadá para as Américas, Peter Kent. Na reunião ontem à tarde, disse que era necessário um lugar mais confortável ao presidente deposto.
O tema também foi mencionado mais tarde pelo chanceler salvadorenho, Hugo Martinez, no encontro à noite entre representantes diplomáticos e Zelaya.
Um das alternativas seria uma casa particular dentro de Honduras, mas com imunidade diplomática. Proposta que dificilmente será aceita por Zelaya, que teme ser assassinado a qualquer momento, inclusive dentro da embaixada.
O fato é que o isolamento da embaixada está fazendo o seu efeito. As restrições sobre o que pode ser trazido para dentro estão provocando falta de material de escritório,como papel e tinta para impressora, itens essenciais para um, digamos, gabinete presidencial no exílio. Falar ao celular é um suplício, devido aos bloqueadores. Os fumadores andam desesperados _também está proibido "importar" cigarro. Problemas simples de manutenção, como consertar um ar condicionado, viram um quebra-cabeças devido ao cerco.
Sem contar que os 66 moradores sobrecarregam a infraestrutura da casa, que já pedia uma reforma antes da chegada dos "hóspedes" . E os problemas de convivência estão aumentando, o que é natural depois de tanto confinamento.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 02h29
Zelaya prostrado
Em encontro com os diplomatas nesta noite, Manuel Zelaya disse claramente: o acordo de San José, que prevê seu retorno condicionado à Presidência, não será assinado nesta quinta-feira, como ele chegou a imaginar no fim de semana. Diante de uma plateia qualificada, que incluia o número dos EUA para América Latina, Tom Shannon, Zelaya fez um discurso demasiado óbvio. Repetiu a história de sua deposição, reclamou novamente do cerco à embaixada brasileira, usou as mesmas frases de efeito das dezenas de entrevistas dos últimos dias. Chegou até a mostrar um bolo de aniversário furado com baioneta como evidência do cerco militar em torno da embaixada. Por outro lado, não foi incisivo em nenhum dos imbróglios envolvendo as negociações, como a política pendular dos americanos, mesmo tendo Shannon ao lado. Nem sequer cobrou do secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, a suposta "complacência" com o governo interino, acusação feita dois dias atrás. No final, não pediu apoio dos diplomatas para a sua restituição, apenas que assegurem que os dois meios de comunicação que o apoiam, rádio Globo e canal 36, sejam reabertos. O grande silêncio foi de Shannon: na reunião, preferiu se sentar no fundo, mais longe da mesa. Não falou nada lá dentro e se recusou a conversar com os jornalistas do lado de fora. Como se sabe, basta Washington soprar mais forte que o castelo de Roberto Micheletti desaba. O ambiente da reunião merece um capítulo à parte: foi realizada na sala do embaixador, pequena para as cerca de 30 pessoas presentes. Para piorar, o ar condicionado estava pifado, deixando o ar quente e pesado. Talvez por isso Insulza tenha dado uma cochiladinha enquanto Zelaya falava. Mas a falta de vento frio ajudou os jornalistas: a reunião teve de ser feita a portas abertas, o que nos permitiu escutar quase todo o encontro. Completando o cenário com um quê de surrealismo, essa sala, onde Zelaya às vezes dorme, está revestida de papel alumínio, a proteção encontrada pela segurança do presidente deposto contra o suposto ataque de raios microondas.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 02h08
Reflexões sobre a cobertura
Alguns comentários me pediram para falar sobre como é a convivência entre jornalistas e o presidente Manuel Zelaya aqui no confinamento. Parte das respostas está em outro blog, o Novo em Folha, da Ana Estela. O link é este: http://novoemfolha.folha.blog.uol.com.br/
Escrito por Fabiano Maisonnave às 02h38
1.001 maneiras de dormir - a série

A cena é de ontem de manhã, no quintal da embaixada.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 02h23
Update do censo
A embaixada perdeu três moradores na segunda-feira. Entre eles, Isabel García, responsável pelo café e pela limpeza dos banheiros, hoje muito mais imundos do que no domingo.
Também um jornalista deu baixa: nos deixou o gaúcho Rodrigo Lopes, da RBS. "Deu pra ti/baixo astral..."
Em compensação, vieram dois do Estadão: Lourival Sant'Anna e Wilson Pedrosa. Hoje, dormirei com o inimigo.
Total atualizado de moradores: 66.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 02h14
Azeda o clima na embaixada
São 22h30 aqui em Honduras. Cerca de 30 minutos atrás, Manuel Zelaya cruzou bufando a sala dos jornalistas. Sem ser dirigir a ninguém especificamente, mas para todos ouvirem, reclamou: "Isso é uma farsa total!" "Eu já falei com Insulza, isso é uma farsa!" Passam mais 15 minutos e ele passa de volta, já mais bem humorado. Agora se dirigindo aos jornalistas, brinca: "Vocês só vão sair daqui no Natal". Independentemente do seu humor, o que está claro aqui é que se esvaiu o recente otimismo de Zelaya e assessores sobre uma solução ainda nesta semana, com a chegada de chanceleres americanos e da OEA. O formato das negociações que começam hoje, sem um prazo final claramente definido, deixou o presidente deposto bastante irritado. Em entrevista coletiva no fim da tarde, ele foi duro: acusou a OEA de ser "complacente" com Roberto Micheletti e afirmou que "subalternos republicanos" do governo Obama alimentam a claríssima estratégia do governo interino de prolongar a negociação ao máximo. Para Zelaya, já se passou tempo demais. Ele foi deposto em 28 de junho, e as negociações na Costa Rica terminaram no final de julho. As eleições presidenciais são em 29 de novembro, e o seu mandato terminaria no final de janeiro. Até segunda-feira, Zelaya parecia acreditar que era possível um acordo até amanhã, quando os chanceleres deixam Honduras. Inclusive os convidou para virem aqui à embaixada assinar o pacto. Mas tudo indica que não será assim. A sua avaliação agora é que a OEA está caindo no "jogo" de Micheletti de fazer uma negociação larga e desgastante. A exigência de Zelaya é exatamente o contrário: primeiro se assina o Acordo de San Jose, com seu retorno imediato à Presidência, e logo se negociam temas pendentes, como calendário eleitoral. Muitos apoiadores de Zelaya acreditam que a estratégia de Micheletti e companhia é, no máximo, devolver o poder a Zelaya bem próximo das eleições, para que sejam aceitas fora de Honduras. A preocupação é maior nas incipientes forças de esquerda, que veem em Zelaya um aliado pontual para promover a convocação da Assembleia Constituinte. Um presidente debilitado e com pouco tempo no poder pouco ajudaria. O fato é que a comitiva de alto nível da OEA chegará com um clima mais pesado do que planejava. O que torna ainda mais difícil prever o que ocorrerá nas próximas horas.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 01h53
Esclarecimento: "no hay iranís ni marcianos"
O site Proceso Digital me procurou para pedir desculpas pelo erro e publicou um esclarecimento. Desculpas mais do que aceitas.
Abaixo o título e o primeiros parágrafos deste impagável "Erramos". O link está aqui http://www.proceso.hn/2009/10/06/Term%C3%B3metro/E.CNo.hay/17301.html
"No hay iraníes ni marcianos en la embajada de Brasil”: Fabiano Maisonnave
Escrito por Fabiano Maisonnave às 16h20
A casa do chapéu

Detalhe do escritório do embaixador brasileiro "sob nova administração". É um dos três cômodos em que Manuel Zelaya costuma dormir. Os chapéus são de seus seguidores _ele só usa aquele branco.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h13
Marciano na embaixada
Alguns posts atrás ("Esclarecimento"), comentei quem eram os estrangeiros aqui. E fiz uma brincadeira bobinha, dizendo que NÃO havia "cubanos, venezuelanos, iranianos nem marcianos". Pois um site bastante lido aqui, Proceso digital, numa das piores peças jornalísticas que já vi, me citou afirmando que na embaixada "hay cubanos, venezolanos, iraníes o marcianos", entre outras distorções. Ou seja, eu teria dito que havia ETs assessorando Zelaya! Também usou uma pequena informação, a de que a ex-ministra Doris García exerce a função de assistente da primeira dama, para fantasiar sobre a vida dela na embaixada. Uma coisa dessas deveria ter sido motivo de piada. Não foi. Virou caso de Ministério Público. É possível que, ao sair deste manicômio, eu seja intimado para explicar onde estão os iranianos na embaixada (aparentemente, a informação sobre os marcianos está involuntariamente correta). O pior é que quem armou o barraco foi Luis Galdamez, da engajada rádio Globo. Sem ter o que fazer depois que a sua emissora saiu do ar, há oito dias, se reinventou como assessor de imprensa de Zelaya. Pois o Galdamez começou a espalhar pela embaixada que eu havia afirmado tal barbaridade. Não fez o básico, buscar a informação neste blog nem me consultar. Quando finalmente veio falar comigo, a história já me havia sido contada umas quatro vezes. Ele disse que eu teria de me explicar ao Ministério Público (havia conversado com um promotor sobre mim) onde tinha visto os tais iranianos. Nem percebeu a ironia de me ameaçar com um órgão que ratificou a deposição de Zelaya. Logo ele, da emissora fechada por uma ocupação militar. Pois confesso que o mandei à m... Várias vezes, em alto e bom espanhol. O imbróglio chegou até o Lineu de Paula, diplomata de plantão aqui que, se acreditasse em Deus, já tinha um lugar no céu. Com uma paciência que não tive, explicou a Galdamez que eu havia escrito justamente o contrário. E, para me proteger, entregou ao promotor que vem à embaixada todos os dias uma cópia do post "Esclarecimento". Mas o ambiente aqui azedou de vez para mim. A primeira dama, em tom agressivo, me fez várias perguntas sobre o que estava no site hondurenho, como se a eu tivesse escrito. A ex-ministra deixou de me cumprimentar. Mas não vou tentar explicar o que aconteceu. Primeiro, porque já havia acontecido casos antes, com o mesmo desgaste, e a coisa se repete. Segundo, se eles, após três anos e meio de governo, ainda acreditam no que leem na débil imprensa hondurenha, é porque se trata de um caso perdido. Por outro lado, é um reflexo do nível de stress e ansiedade na embaixada sitiada há 15 dias. Mas a embaixada realmente tem um marciano: virou o meu apelido entre os colegas que assistiram à cena. PS: durante a redação deste post, o Galdamez veio me pedir desculpas. Foram aceitas. PS2: aqui, a nota que provocou tudo isso: http://www.proceso.hn/2009/10/04/Term%C3%B3metro/A.C.BAn/17256.html
Escrito por Fabiano Maisonnave às 13h48
Acaba a ocupação da embaixada. Na Venezuela
Há cerca de uma hora, 18h na Venezuela, deixaram a Embaixada do Brasil em Caracas os três estudantes antichavistas que haviam se amarrado a um sofá por volta das 9h locais. Ao todo, a ocupação durou cerca de nove horas, apesar da promessa inicial de ficar no local até que se definisse uma data para a visita da OEA ao país. Por precaução, a maioria dos funcionários da representação foi mandada pra casa.
Os estudantes querem que a entidade averigue a situação dos direitos humanos na Venezuela. Daqui da embaixada em Honduras, não consegui apurar por que eles mudaram de ideia sobre a ocupação.
Ao jornal "El Nacional", o estudante Luis Magallanes disse que, "sabendo da intermediação que o Brasil fazendo em Honduras", eles esperavam a mesma coisa para a Venezuela.
A moda pegou?
Escrito por Fabiano Maisonnave às 20h42
Outra embaixada brasileira tomada!
Virou moda: às 9h locais (1h30 a menos que Brasília) , três estudantes universitários de oposição a Hugo Chávez se amarraram no sofá de entrada da Embaixada do Brasil em Caracas, aparentemente com silver tape, contou uma funcionária. A embaixada, que ocupa um andar de um prédio comercial com pouca segurança, foi esvaziada; ficaram apenas três diplomatas, incluindo o embaixador Antonio Simões.
Os estudantes querem a intermediação do Brasil para acordar uma visita da Comissão de Direitos Humanos da OEA à Venezuela.
Ao jornal "El Universal", um dos manifestantes disse que escolheu o Brasil por "respeitar os direitos humanos" e ao mesmo tempo ter "boas relações" com Lula.
Daqui a pouco, o Itamaraty vai ter de reformar as embaixadas para atender a tantos hóspedes.
Para mais detalhes, veja a reportagem do "El Universal": http://www.eluniversal.com/2009/10/05/pol_ava_piden-a-brasil-ser-i_05A2843251.shtml
Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h54
Zelaya quer assinar acordo na embaixada
Blogueiro novato, pela primeira vez fui vítima da pressa na internet: ao contrário do que havia dito aqui, Manuel Zelaya não quer negociar aqui na embaixada, apenas assinar um eventual acordo. Perdão.
O texto do comunicado de Zelaya estava correto. É este:
"A sede diplomática da República Federativa do Brasil, em Tegucigalpa, proporciona o marco de segurança nacional e internacional para a assinatura desse acordo por ambas as partes e assegura transparência e imparcialidade, assim como o respeito à integridade física, os direitos constitucionais e a vida do presidente eleito pelo povo, Manuel Zelaya."
Escrito por Fabiano Maisonnave às 11h02
Fim do cerco mais próximo?
Agora há pouco, a reportagem da TV Brasil, Roberto Maltchik à frente, esteve na embaixada. Fez o grande circuito: percorreu a casa, filmou os militares que a vigiam e entrevistou o hóspede ilustre.
Tomara que as duas visitas do dia signifiquem uma flexibilização do acesso à embaixada. Parece que sim: Xiomara, filha de Zelaya que tem o mesmo nome da mãe, também esteve aqui hoje.
E um pedido aos colegas que estão por vir: pô, tragam alguma coisa! Frutas (menos banana), biscoitos e chocolate são bem-vindos! Ou me liguem antes de entrar. Até agora, só ganhei um chiclete.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 21h56
A Globo entrou

A reportagem da TV Globo enviada a Tegucigalpa finalmente entrou na embaixada agora de manhã. É o terceiro meio brasileiro a ter autorização durante os 12 dias de isolamento da representação brasileira, depois da Folha e do grupo gaúcho RBS.
A equipe filmou toda a casa, inclusive os banheiros, falou com alguns “hospedes” e entrevistou Manuel Zelaya.
A visita teve um pequeno incidente, quando a reportagem gravou uma das “suítes” da casa, acordando os assessores mais importantes de Zelaya. Filmaram quarto e o amplo banheiro, considerado o melhor da casa, mas bem pouco acessível.
Para conseguir entrar, o repórter da Globo José Roberto Burnier usou uma estratégia inusitada: anteontem, participou de um progama de TV de Rodrigo Wong Arévalo, um dos jornalistas mais conhecidos do país e próximo de Roberto Micheletti. Ali, disse que queria entrar na embaixada apenas para cumprir com o seu trabalho e que não era partidário de Zelaya, uma fama recém-adquirida de qualquer brasileiro por causa do hóspede ilustre. Deu certo.
PS: na foto acima, Burnier entrevista o enviado de Celso Amorim, Lineu de Paula.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 14h42
Sem embaixadinha na embaixada
A cada dia, um dos meios de comunicação aqui representados se encarrega de trazer a comida e outros itens básicos, como roupas, papel higiênico e talheres descartáveis. Ontem, foi a vez da Folha, representada pelo lado de fora pela atenta Ana Flor.
Funciona assim: para entrar, é preciso entregar tudo ao Andrés Pavón, presidente do Comitê dos Direitos Humanos em Honduras, um dos poucos autorizados a entrar na casa diariamente, além de funcionários da ONU e da embaixada. Após minuciosa inspeção militar e policial, ele entrega as matulas pelo portão principal, sob forte presença policial, uma verdadeira cena de cadeia.
Abusando da generosidade da Ana, pedi que ela nos trouxesse uma bola de futebol. Ela passou a redonda para o Pavón, mas ele não conseguiu driblar a retranca policial, e a bola bateu na barreira e voltou.
A lista de itens vetados na inspeção, segundo Pavón, inclui comida enlatada, gel para cabelo, colchonetes, lençóis, lanternas, pilhas, caderno, papel e tinta para impressora, CDs virgens, liquidificador, microondas, medicina natural (como raízes), carregador de celular, alguns medicamentos com prescrição e barracas.. O motivo, óbvio, é tornar a vida do lado de dentro mais difícil.
Futebol aqui, só com laranja velha.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 12h30
Quem é quem na embaixada
Hoje, a Folha publica uma reportagem com 11 dos 68 personagens aqui da casa. Não posso reproduzi-la no blog, mas o acesso ao jornal é gratuito por estes dias.
Basta ir à página http://www.folha.uol.com.br/, clicar na capa do jornal e buscar a página A 20. Há uma pequena biografia de cada um. Se houver tempo, tentarei ampliar algumas aqui.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 11h05
Menos, menos
A Globo, a Globo News e o G1 mostraram "imagens exclusivas" da Embaixada Brasileira em Tegucigalpa. Exagero. Poderiam ter usado imagens com qualidade bem melhor dos cinegrafistas da AP e da Telesur, que estão aqui desde a chegada de Zelaya e enviam material diariamente. O acesso da imprensa à embaixada é praticamente impossível, estamos realmente sitiados aqui, mas não há o grau de isolamento que a câmera tremidinha dá a entender. Sempre houve uma quantidade razoável de jornalistas acampados aqui com Zelaya, incluindo as maiores agências do mundo, Reuters (só foto) e AP (foto e TV).
E foram justamente os jornalistas que aparecemos nas imagens divulgadas, embora todas as descrições falem de "seguidores usando computadores onde fazem campanha para a volta de Zelaya ao poder". Não há nenhum assessor do Zelaya ali. O Rodrigo Lopes, repórter da RBS que continua aqui, poderia ter sido consultado.
O link para as matérias está abaixo
Escrito por Fabiano Maisonnave às 01h59
Mel explica por que está na embaixada
Numa das poucas vezes que saiu da área interna da casa nesta semana, Zelaya levou a mãe e a sogra nesta tarde de sábado para conhecer o grupo "Amigos de Mel", feito com instrumentos improvisados e principal passatempo dos militantes. Foi a primeira visita familiar que recebeu desde que se refugiu na embaixada, há 13 dias.
Ali, depois de cantarolar "Aquarela do Brasil", ele contou por que realmente estava na embaixada: quando se casou com Xiomara, há distantes 33 anos, lhe havia prometido levá-la ao Brasil. "E hoje eu cumpri", brincou. Promessa de político, já se viu.
Zelaya, que aproveitou a presença familiar para um photo-op de primeira, ainda tentou cantar Roberto Carlos. O resultado, aqui.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 00h50
Esclarecimento
Aos leitores, a internet aqui não é fácil e venho tentando conciliar as minhas obrigações com o jornal e com este blog. É um meio novo para mim, ainda estou tateando.
Há muitas perguntas enviadas, estou tentando responder as que sei e acho pertinentes, acho que até amanhã fica pronto.
Sobre a mais reicindente, a presença de não-hondurenhos na casa: há um padre salvadorenho naturalizado hondurenho entre os assessores de Mel e um guianense que mora aqui há 34 anos (tem 11 filhos!). Só há um membro do gabinete, a ex-ministra da Mulher Doris García. O que mostra o isolamento de Zelaya dentro de sua agremiação, o Partido Liberal.
Já os jornalistas somos quase todos estrangeiros, com a exceção de dois, um fotógrafo da AFP e um jornalista da Rádio Globo local. Não há cubanos, venezuelanos, iranianos nem marcianos. Amanhã, sai na Folha vários perfis de quem é quem aqui na casa, prometo colocar o link.
Sobre as armas: os seguranças de Zelaya entraram com pistolas na embaixada. Elas foram recolhidas após dois dias por um funcionário brasileiro e estão trancadas numa das salas mais seguras do prédio. Essa informação foi publicada primeiramente pelo jornal "O Globo", e eu pude confirmá-la aqui.
Escrito por Fabiano Maisonnave às 23h23

