Da Embaixada
Da Embaixada
 

Los Tres Amigos na embaixada

Dormir no quarto ao lado da notícia tem um alto custo: há dias em que os jornalistas acordamos trabalhando.

No aniversário de Xiomara Castro, na quarta-feira, uns 20 militantes despertaram toda a casa, inclusive o primeiro casal, com uma cantoria às 5h50 da madrugada.

Quando a rádio Globo foi fechada, na madrugada de segunda-feira, o repórter da emissora, também hospedado aqui, nos deu a notícia em primeira mão entrando aos berros no "quarto", lá pelas 3h ou 5h, já nem me lembro. 

Mas hoje o macondismo bateu o recorde: às 6h, um grupo de mariachis vestidos a caráter desfilou tocando diante da embaixada escoltado por militares! Infelizmente, ninguém conseguiu a foto, foi rápido demais. Nem mesmo o Orlando, fotógrafo da AFP que dorme abraçado a sua máquina. Como não havia a imagem, combinamos todos que era um sonho coletivo e voltamos a dormir.

PS: depois nos explicaram: hoje se comemora o Dia do Soldado em Honduras.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h56

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Zelaya e Micheletti maltratam a embaixada

 

 

 

Tanto a "hospedagem" do lado de dentro quanto o cerco do lado de fora estão abusando da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. O imbróglio diplomático completou 12 dias hoje.

Do lado de dentro, o abuso maior está no excesso de pessoas _ o "hóspede" Manuel Zelaya tem 54 "acompanhantes", como ele mesmo define. A casa, embora tenha 400 metros quadrados, não aguenta, não está preparada, é uma repartição pública. O Itamaraty tem pressionado para que esse número diminua, mas só oito saíram nos últimos quatro dias.

Já há algum dano ao patrimônio. Há dois dias, por exemplo, um militante quebrou a porta de vidro com a cabeça _não a viu fechada. Zelaya prometeu reparar, mas como é que se traz um vidraceiro aqui?

Para piorar, o prédio da embaixada também não estava lá essas coisas _os móveis são velhos, puídos e há problemas de manutenção anteriores à "invasão". Se um dia alguém tentar descobrir de quem é a culpa por esse ou aquele dano, poderá ser difícil separar o joio do trigo.

Por outro lado, Zelaya está mais contido em suas declarações. Deixou de exortar manifestações e desobediência civil, um pouco pelas broncas do Itamaraty e um muito porque o seu grande palanque, a rádio Globo, foi tirada do ar na madrugada de segunda-feira horas depois da declaração do estado de sítio.

Do lado de fora, o cerco militar impressiona. Soldados e policiais mascarados, armamento pesado, revistas abusivas e desnecessárias, bloqueadores de celular, dois ataques de gás na semana passada e proibição de visitas de jornalistas e líderes nacionais e ultimatos.

Além disso, é uma situação, que eu saiba, sem precedentes: em geral, as pessoas se refugiam numa embaixada para fugir de um país, e não para entrar nele.

Estou convencido de que a entrada de Zelaya na embaixada não foi combinada com o governo Lula. E tampouco era possível fechar a porta para o presidente legítimo de Honduras, segundo a ONU e a OEA. Buscar o equilíbrio numa situação assim, reconheçamos, não é tarefa das mais fáceis.

PS: a foto acima é de hoje de manhã. Esse militar está a cerca de cinco metros do muro da embaixada, no alto de um morro.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h37

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Outro blog

Não estou só em tentar relatar o que acontece aqui via blog. O excelente trabalho do meu colega Edgard Garrido, autor daquela antológica foto de Zelaya descansando sobre cadeiras, pode ser visto aqui: http://blogs.reuters.com/photo/2009/10/01/in-exile-with-the-president/#comments.  Garrido trabalha na Reuters, é chileno e está na embaixada desde o Day One. Diz que joga futebol bem, mas aqui não tem nenhuma bola para comprovar.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 10h41

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Há 1.001 e uma maneiras de dormir. Invente uma

A foto acima é do segurança Alejandro Josué Carcamo, encarregado de vigiar a entrada do quarto onde dormem Manuel Zelaya e a esposa, Xiomara. A cada noite, Josué pega no sono de um jeito, mas o contorcionismo de anteontem superou os limites.

Cerca de metade das pessoas da casa ainda dorme no chão, apenas sobre um papelão, já que os militares não permitem a entrada de colchonetes e sacos de dormir _felizmente, abriram uma exceção aos colchões de ar dos jornalistas, que emprestraram um ao enviado de Celso Amorim, Lineu de Paula. Antes, o encarregado de negócios, Francisco Catunda, descansava sobre o sofá de sua sala. Zelaya dorme num colchão de ar que a sua família havia trazido desde o primeiro dia, o já distante 21 de setembro.

Na improvisação, uma das alternativas mais populares é "deitar" sobre duas cadeiras e os sofás. Há também uma assessor que montou seu quarto embaixo de uma mesa, para dormir mais no escuro.

Com a superlotação, é quase impossível andar pela casa sem passar por gente dormindo pelo chão.

PS: adoraria colocar mais posts, mas a internet anda péssima, afetada pelos bloqueadores de celular instalados em volta da embaixada.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 15h36

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Sai o censo da embaixada: 68 almas

Acaba de sair o número de pessoas dividindo o teto da embaixada. E é mais do que se supunha. De acordo com o levantamento feito pelo pessoal do Manuel Zelaya, somos 65. Somando o enviado especial do chanceler Celso Amorim, Lineu de Paula, um segurança privado da embaixada e o recém-chegado colega Rodrigo Lopes, da RBS, que hoje também conseguiu furar a barreira militar, o número sobe para 68.

O levantamento mostra as funções de cada um dos "hóspedes", a maioria já com dez dias de casa.

Fica clara a preocupação, excessiva a meu ver, de Zelaya com a segurança. Do seu "staff" de 53 pessoas, 28 estão encarregados de protegê-lo. Ou seja, mais da metade. Há um coordenador geral de segurança, dois seguranças presidenciais, 12 escalados para fazer a "segurança perimetral" durante o dia e outros 13 cumprem a mesma função à noite.

Há ainda dez para fazer "controle de acesso e protocolo", três assessores presidenciais, três da comissão de limpeza e cozinha, três de assistência técnica e quatro de manutenção.

Completam a equipe o médico Marcos Girón e a ex-ministra Doris Garcia, que exerce a função de assistente da primeira dama.

Os jornalistas somos 11, já contando o Rodrigo.

Na soma, é muito mais do que o número que se estimava até a saída do censo, de cerca de 50 pessoas.

A orientação do Itamaraty é para que a embaixada seja esvaziada ao máximo. Há dois dias, oito deixaram o prédio, mas o inchaço continua.

 

PS: sim, falta falar da visita dos deputados. Foi amistosa com Zelaya, não teve problemas com os militares na entrada (só o fotógrafo oficial não entrou) e contribuiu para o clima geral de que é necessário um acordo, e não estado de sítio. Intencional ou não, o "timing" foi bom, como observou um amigo, ainda que negociar o ultimato de Micheletti contra o Brasil com o Congresso não tenha tantas consequencias práticas como eles saíram falando. 

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 00h52

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Cerco à embaixada

Esta foto foi tirada por mim na terça-feira, de cima do muro da embaixada. Mostra o momento em que a auxiliar administrativa brasileira Maria Helena de Berenguer Cesar Diaz retira o seu carro particular, oito dias depois de Manuel Zelaya ter se transformado em "hóspede". Antes de serem devolvidos, os cinco automóveis de funcionários sofreram uma minuciosa vistoria que incluiu até cachorros que farejam drogas _o estofado de um deles ficou todo sujo com as patas do animal.

O governo interino está dificultando ao máximo a vida dos funcionários brasileiros em Honduras. O enviado de Celso Amorim, Lineu de Paula, foi orientado pelo Itamaraty a não sair mais do prédio depois que, na terceira vez que entrou, teve de esperar por cerca de uma hora por não ter carnê diplomático. Só passou por "cortesia" da Chancelaria de Micheletti. A ideia era de que ele revezasse em turnos de 24 horas com o encarregado de negócios em Honduras, Francisco Catunda, que ontem sofreu uma revista de 30 minutos.

PS: aos que viram a foto só pela metade momentos atrás, minhas desculpas.

 

Escrito por daembaixada.folha às 02h48

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No olho do furacão

Parafraseando Claude Lévi-Strauss, odeio os blogs e os blogueiros. E também sou dos jornalistas que evitam a primeira pessoa e preferem estar atrás, e não na frente, das câmeras.

Mas capitulei: ficar vários dias numa embaixada cercada de militares e policiais encapuzados junto com um presidente deposto e outras 50 pessoas em meio a um estado de sítio é motivo mais do que suficiente para um registro pessoal. Como não tenho disciplina para escrever para um diário, que a tarefa assuma ares de obrigação.

Estou na embaixada desde a sexta-feira, há cinco dias, portanto. O prédio, uma casa residencial adaptada, tem dois pisos e é bastante ampla, mas não o suficiente para abrigar tanta gente. Impossível não comparar com uma prisão terceiro-mundista: aqui é superlotado, o acesso a itens básicos é limitado, há “celas” de luxo e outras em que se dorme no piso, se formaram grupos, tem problema de furto, a vigilância é 24h,  os celulares de dentro duelam com os bloqueadores de celular fora, e o cigarro virou moeda de troca.

Mas não estou preso, posso sair quando quiser. Continuo aqui porque a história é boa.

Durmo num colchão de ar de casal com outro colega. Na sala, descansam cerca de 15 pessoas (o número varia a cada dia), entre jornalistas e seguranças de Zelaya, que fica no quarto ao lado. O sono é entrecortado pelo entra-e-sai, por conversas na sacada ao lado e principalmente pelos roncos. Para tomar banho, água fria e um pouco de paciência por causa da fila.

Como não tenho apoio externo, dependo de meus colegas que estão aqui. Principalmente do pessoal da Telesur, que divide a comida, empresta colchão, saco de dormir, toalha (a que eu trouxe sumiu), adaptador de computador e tudo que eu precisar e estiver ao alcance deles.

Somos ao todo nove jornalistas: além dos três da equipe da Telesur, há um cinegrafista da AP, fotógrafos da AFP e da Reuters, um jornalista americano do site Democracy Now e um repórter da rádio Globo hondurenha, tirada do ar na segunda-feira. A convivência é tranquila e quase sempre bem-humorada, apesar do pouco espaço para trabalhar e das dificuldades impostas pelas circunstâncias.

O principal problema é o celular e a internet via cartão. Os militares instalaram em volta bloqueadores que atrapalham a chamada. Há momentos do dia em que é praticamente impossível falar ao telefone ou acessar a web.

A embaixada exala o nervosismo de Manuel Zelaya, o hóspede mais ilustre. Ele realmente acredita, e faz muitos acreditarem, que o prédio pode ser invadido a qualquer momento ou que corre ser morto por um franco-atirador. Leva a sério em qualquer suspeita que lhe contam, como o de que estão construindo um túnel ou o de que está sendo atacado por raios de microondas. Passa quase o dia na área interna da embaixada, no quarto ou em dois escritórios improvisados. Duas ou três vezes por dias, fala com jornalistas, em geral exortando seus seguidores a protestar, para desespero do Itamaraty.

Mas já estou me adiantando. Esta deveria ser apenas uma apresentação, e sei que poucos que começaram a ler esse arrazoado chegaram até aqui.

Daqui a pouco começam os posts.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 23h34

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Fabiano Maisonnave Fabiano Maisonnave, 34, é correspondente da Folha de S.Paulo na Venezuela.

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